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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Onde mora a Dança do ventre?


Meu corpo é o registro físico da minha trajetória de vida. Nada como aquela cicatriz enorme e esbranquiçada na canela para me lembrar de que um dia fui uma criança, que por entre aqueles passinhos tortos da botinha ortopédica preta tropeçava em si mesma em meio ao concreto grosso. Minhas botinhas, cujo meu pai me ensinou a engraxar para que ficassem polidas e brilhantes. E minha mãe sempre olhava com cuidado para ver se não estavam trocados os lados. Aquelas botinhas com palmilhas grossas que faziam meus pés esquentarem e me envergonhavam sempre que alguém me fazia lembrar que eu as usava quando me perguntava: Porque está usando esses sapatos  esquisitos? Não estão com os pés trocados? Mas não estavam com os pés trocados. As botinhas tinham os bicos arredondados e ainda eram um pouco curvados para os cantos de fora, na tentativa de corrigir a pisada que se direcionava para dentro, evitando com que as pontas dos meus pés se encontrassem e se cruzassem, e lá se ia mais um tombo!
O interessante é que sempre que me faziam a tal pergunta, eu já tinha a resposta na ponta da língua! Explicava o motivo do formato da botinha preta, com esperança de que o assunto terminasse por ali mesmo. Mas, como os adultos sabem mais do que as crianças, não custavam a insistir. E logo vinham com a segunda observação: Mas estão trocados os lados! Já não era mais uma pergunta, era uma afirmação em tom impositivo. Bom, uma criança de seis anos de idade não tem prestígio, ainda bem que a minha mãe sempre observara a verdadeira posição das botinhas pretas!
As botinhas nunca me abandonaram, mesmo quando parei de usá-las. Mesmo quando se tornou muito importante para eu calçar aquelas sandalinhas da Xuxa de plástico, tão desconfortáveis quanto de gosto duvidoso. Mas, toda menina deveria ter uma dessas. Ainda bem que meus pais nunca deram tanta importância a esses modismos.
Agora, vocês devem estar se perguntando o que tem haver essas benditas botinas pretas com a dança? Ora! Meus passinhos tortos que me levaram à dança! Todos sabem que o ballet clássico faz bem para as pernas e pés!
Ali estava eu, conheci minha primeira professora de dança, a tia Angélica. Durante os próximos 5 ou 6 anos achava mesmo que ia ser uma grande bailarina e que podia aprender tudo com a tia Angélica na  academia da Granja Viana em Cotia/SP. Mas só fui perceber que existia andeors, pernas altas e peito de pé quando conheci a Kátia.  que era mãe da minha melhor amiga na quinta série, Katia era bailarina formada no teatro municipal, isso fez meus olhos brilharem!
Era inevitável o rompimento do cordão umbilical com a tia angélica e fomos procurar outra academia, e lá estava a faixa “aulas de dança do ventre”.
                Adriane foi a minha primeira professora da misteriosa dança do ventre e não posso negar que foi muito fácil e delicioso fazer os oitos e batidas de quadril. Com ela tive o primeiro embasamento da prática da dança do ventre. Ainda lembro-me da roupa de veludo preta que ela usava, com lindas pedras douradas e muitas franjas de moedinhas (talvez seja mais linda na minha imaginação do que na realidade, eu não sei dizer).
Perdi contato com professora Adriane depois que me mudei pra Curitiba, mas ainda bem que a umas três quadras da minha casa havia uma pequena escola de dança com o nome “Inspiração”. E não é que lá tinha aulas de dança do ventre?! E ainda de street dance.
A pequena escola Inspiração foi a minha grande escola na verdade. Tecnicamente não tinha muito mais o que aprender com a Mary sobre dança do ventre especificamente, mas foi com ela que passei a perceber a dança como algo que vai além de técnicas, que para mim era como um campo selvagem, desconhecido, obscuro. Inspiração, foi exatamente isso que representou essa vivência.
Não aprendi lá um uma fusão de tremidos com ondulatórios, nem deslocamentos Mona Said, muito menos os “tranquinhos” de Madam Raquia. Mas minha formação clássica, meu físico e iniciação profissional como bailarina e professora  estavam se transformando.
Não posso deixar de falar sobre o Toco, meu professor de dança de rua. Disciplina, dedicação, aprimoramento e muita experiência de palco. Mas antes de tudo, fazer parte de uma estrutura famíliar que se forma em um grupo de dança e chegar ao ponto em que se deva passar por cobranças ácidas e avaliações com muita perseverança foi realmente acrescentador.
Como já tinha idade e condições para desfrutar de alguma liberdade financeira, como também de me locomover na cidade sem depender dos meus pais, fui buscar conhecer mais sobre a dança do ventre. Então conheci a Rose quando fui vê-la dançar num barzinho tradicional árabe e ela me chamou pra dançar. A Rose percebeu que eu tinha algum domínio sobre a dança do ventre e me convidou para dar aulas em sua escola “Avalon”, que funcionava no seu próprio apartamento.
A Rose me ofereceu boas oportunidades no meio da dança e eu percebia que ela notava algum talento em mim. Cheguei a trabalhar como secretaria da sua escola também, apesar de não ter sido fácil esse período, foi nessa época que passei a estudar mais a fundo os preciosos vídeos da Lulu Sabongi que Rose colecionava. Foi ali também que a minha dança ganhou um “q” de sofisticação e delicadeza.
Mas enfim, me encontrei com quase dez anos estudando e conhecendo a dança do ventre e a falta de caminhos me atormentava. Eu não encontrava meios de crescer profissionalmente, tinha chegado a um ponto em que não sabia mais como ir além do que já conhecia e não queria traçar os mesmos caminhos que as outras bailarinas traçavam. Nada mais pra mim era novidade, mergulhei no campo das artes visuais e esqueci a dança por uns 3 anos.
Tem certas coisas que ficam pulsando bem fraquinho dentro de nós e quando me mudei pra Cuiabá encasquetei em voltar à dançar. Era como se precisasse de ar. 
Conheci então a minha querida amiga e professora Yasmine, que fui descobrir depois de algum tempo que seu nome verdadeiro era Claudia, mas o que é verdadeiro? Yasmine também é muito verdadeiro e a questão é: O que é verdadeiro dentro da dança do ventre? Iria além, e dentro das artes?
Hoje me deparo entre regras socialmente padronizadas no meio acadêmico e a liberdade total, sem regras no mercado das artes. Mas vou voltar a falar apenas sobre a dança e mais especificamente sobre a dança do ventre.
A dança do ventre está dentro do campo das danças sociais, festivas, folclóricas e que tem raízes culturais, praticada por pessoas de maneira espontânea e amadora nas comunidades. E a partir daí que ela, há relativamente pouco tempo, comparada a outras modalidades começou a se profissionalizar como conhecemos hoje (cerca de um século). Porém nunca abandonou seu caráter social. Unido a isso e por conta disso, ela se caracteriza por utilizar meios de improvisação e individualidade na interpretação da bailarina dentro do seu contexto estético. E, realmente são essas características principais que me encantam na dança do ventre.
Pode parecer muito fantasioso tratar de sentimentos e sensações que a dança pode provocar em uma pessoa e às vezes até um pouco místico, principalmente quando vem em mente a expressão “dança do ventre”. Mas é certo de que existe um senso estético e tradicional a que se deve respeitar devido à carga cultural que ela carrega. No entanto, ao mesmo tempo seria muita pretensão de qualquer ser humano delimitar regras e normas exatas sobre as técnicas dessa modalidade e afirmar com tanta eloquência detalhes minuciosos e subjetivos em relação à pratica da dança.
Ao longo da “minha história na dança” (expressão que ouvi da professora Suzana em Campo Grande), passei por algumas avaliações formais sobre a prática da dança do ventre que apresento e venho me deparando, muitas vezes, com tamanhos despropósitos de opiniões e condutas por parte dos avaliadores.
Enquanto um avaliador renomado tece seus parâmetros técnicos apontando como verdades absolutas seus preciosos movimentos corporais e condutas profissionais. Outros tecem diferentes parâmetros estéticos e verdades absolutas que contradizem uns aos outros. E então, onde mora a verdadeira dança do ventre?
Não é difícil compreender que a dança do ventre, assim como qualquer outra, só pode morar no corpo de quem a dança. E o corpo, por sua vez, é único, repleto de trajetórias, histórias, cicatrizes. É a memória do corpo. E o que somos senão memória?
Somos a nossa memória, por dentro e por fora. Nossas mentes brincam e manipulam as nossas memórias e nosso corpo representa a nossa memória, fisicamente ele é coordenado pela nossa memória e mesmo que vicioso ou deficiente, nosso corpo, ainda faz parte do que somos ou mais, representa o que somos, ou mais, é apenas o que somos (não vou adentrar aqui nas relações dos conceitos do “belo”).
Meu corpo em minha dança ou minha dança em meu corpo está repleta de memórias, repleta de mim mesma e a dança do ventre possibilita expressar essa individualidade entre o tradicionalismo cultural e ao desamparo acadêmico, gerando maior flexibilidade na liberdade da prática da dança.
Essa característica da flexibilidade natural na pratica da dança do ventre parece ser, muitas vezes, esquecida ou subitamente arrancada da sua própria condição histórica e cultural pelos avaliadores tão gabaritados na área. Mas o que mais me preocupa é a falta de embasamento teórico e de pesquisas para a criação de seus parâmetros e suas verdades absolutas, tanto as ligadas às culturas dos quais se originaram a dança do ventre como às que estão ligadas ao entendimento e representação artística da dança como simples expressão do corpo e individualidade humanas.
Por isso, penso que os métodos de avaliações atuais necessitam urgentemente serem revistos e reconstruídos, este, deveria fazer parte de um processo de conhecimento mútuo e seu resultado jamais deve ser passado de maneira impositiva ou taxativa. Creio que bons professores da dança preocupados em aprofundar o conhecimento de seus alunos e colegas já estão tomando essa iniciativa a fim de sensibilizar a produção artística da classe.
Agora digo aos avaliadores, muito obrigada por ajudar a enxergar a mim mesma, mas antes de tudo, respeitem a trajetória da “minha história na dança” não subestimem, não queiram obrigar a modificar o que não julgo necessário, não tirem de mim as “verdades” de Yasmine, não tirem de mim os movimentos pequenos e delicados da Rose (e da Lulu, porque não?), não tirem de mim a inspiração da Mary, não tirem de mim a perseverança do Toco, não tirem de mim a meia ponta da Kátia, não tirem de mim a base da Adriane não tirem de mim a ingenuidade da tia Angélica e por fim, não tirem de mim minhas botinhas pretas, pois, os lados não estão trocados!




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2 comentários:

  1. Poxa, me emocionou, as nossas limitações acabam sendo um presente quando aprendemos,pois se estamos prontos, não tem mais para onde ir...
    Muito bom te conhecer um pouco mais!
    Temos mesmo que explodir um pouco para existirmos não é?

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  2. "temos que explodir para existirmos" mto boa frase!!!

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